E então que ele voltou a beber vinho. E então que ele voltou a beber vinho escondido. Quer dizer, tudo com apoio de digníssima e submissíssima mamãe.
Ao menos seja homem o suficiente pra assumir suas fraquezas e esfregar na cara de todo mundo que você escolheu o vinho ao invés da sua família.
O que me deixa mais puta da vida é que eu simplesmente acreditei. Há dias que eu venho sentido um gosto estranho nos copos de plástico cada vez que eu tomo água, um gosto estranho e familiar, e mesmo assim a hipótese de ele ter voltado a beber sequer passou pela minha cabeça. E ontem, quando eu abracei ele, eu senti aquele maldito cheiro. E vi um dos copos de plástico do lado dele. Com vinho.
Se fosse pra voltar a beber, o senhor podia muito bem não ter parado. Assim eu não saberia o que é ter um pai de verdade. Mas não é a primeira vez que você tem uma recaída e não é a primeira vez que mamãe diz que você é mais forte do que isso. Pobre tola.
Por favor, alguém que foi dado como paciente terminal por causa da bebida e volta a beber é mais forte do que o álcool?
O pior de tudo é que ela ainda mente pra te proteger. “Ontem foi a primeira vez”. Sim, e o gosto nos copos de plástico que eu venho sentindo faz semanas? “…”
Ao menos hoje tiveram a decência de colocar os copos de vidro na mesa na hora do almoço.
O senhor lembra aquela vez que eu te agradeci por ter parado de beber? Aquela vez que eu te disse o quanto te amava e o quanto era bom realmente ter um pai? Duvido. Duas horas depois o senhor caiu no chão de tão bêbado que estava.
O senhor lembra de todas as vezes que fez com que a minha irmã aumentasse a dosagem do antidepressivo? Que quase fez ela se matar? Eu lembro, mesmo que eu tivesse apenas 6 anos, a imagem dela com uma facão apontado pro pescoço vai me assombrar pro resto da vida. A a sua indiferença com a cena também.
Lembra de todas as vezes que o senhor insultou a minha mãe e a família dela? Na frente deles? Que fez ela dormir na sala – porque o senhor não tem nem a decência de ceder seu quarto? Que fez ela chorar diversas noites?
Enfim, eu lembro. De tudo. E sempre vou te odiar por isso.
Principalmente porque no dia seguinte o senhor não se lembrava de nada, e tudo que fazia ao ouvir suas façanhas era RIR. Rir e beber mais.
Hoje o senhor fingiu que não aconteceu nada ontem. E ainda vem tentar me comprar com presentes e doces.
Sabe o que o senhor poderia fazer com esses mimos?
Pois é, enfia no cu.
Eu provavelmente sou um monstro. Daqueles que vive no seu armário e enquanto você dorme molesta o seu bichinho de pelúcia favorito.