Vamos falar de como meu mundo gira em torno do meu umbigo.

Cena (ou sena, se você é a Sasha) 1: eu não quero ir na psiquiatra.
Cena 2: eu quero ir na psiquiatra.
Cena 3: eu não quero ir na psiquiatra e quero que você vá pro inferno, pai.

Depois de ter dado um piti e amaldiçoado as próximas 3 gerações da minha família por não querer ir na psiquiatra, minha bipolaridade ataca e, oh, eu decido ir. Por quê? A idéia de eu preciso de ajuda partiu de mim mesma. Eu estou ciente que não é normal ter ataque de pânico, depressão e possível transtorno bipolar. Eu estou ciente. Da mesma maneira que eu estou ciente que isso não diz respeito a mais ninguém. Se você foi durante anos em uma psiquiatra – o que eu sei que é mentira – o problema não é meu. Não tente fazer com que eu me relacione com mentiras. E se você é depressiva e vai em uma psiquiatra há décadas, o problema ainda não é meu. E só faz eu ficar mais pra baixo, pois nesse período a única coisa que eu vi você fazer foi aumentar a tarja dos seus medicamentos. Eu não quero depender de uma pílula pra sorrir. Eu não quero depender de uma pílula pra parar de ter medo. Eu não quero depender de uma pílula pra viver.

Eu estava pronta para ir, esperando o elevador chegar, até você abrir a boca.

Querido papai, POR QUE diabos você tentou me convencer a ir sendo que eu já tinha dito que, porra, eu iria? Por que você disse que psiquiatra não é só pra louco? Intenção boa, resultado terrível. E, como um toque final, você disse que ia em psiquiatras há anos e a mãe também, por causa da depressão.

Me recuso a repetir o que achei dessa frase.

E no elevador ele ainda disse: “Por que tua mãe vai no psiquiatra? Por que é louca.”

Porra, porra, porra. Eu sei que foi uma brincadeira, mas porra! Cê tem problema? Comeu merda? Cheirou gatinho? Obviamente isso resultou em outro ataque.

Eu sei que eu preciso de ajuda, mas ao mesmo tempo a idéia de que eu não posso resolver isso sozinha é degradante.

Ah, e eu já comentei que talvez meu ataque de pânico não seja um ataque de pânico? Se duvidar, pode ser até esquizofrenia. Enfim, o que ocorre é o seguinte: começa com que minha audição ficando filha-da-putamente aguçada, seguido por um medo irracional e a idéia de que eu vou morrer.

Exemplo: em Vancouver, no Skytrain, de repente eu ouvia um barulho que já estava acontecendo antes, só que mais forte, e daí o medo e o pensamento de morte iminente são desencadeados. Ou então quando estou esperando o sono chegar, começo a ouvir barulhos que acontecem toda a noite, mas um pouco mais altos, e então o combo desespero + possível morte ocorre. E nesses períodos parece que eu não estou conseguindo respirar, por mais que eu esteja claramente inspirando e expirando. A sensação de ar não chega nos meus pulmões.

O estranho de tudo é que uma parte do meu cérebro me diz que, sim, isso é ridículo, eu não vou morrer e, porra, você está respirando, apenas se concentre na respiração. E é isso que faz com que eu me acalme.

Talvez esse pensamento seja o que resta de sanidade se manifestando.